Dizem que, para os que acreditam em destino, nada é por acaso. A verdade é que, quando o assunto é jornalismo, é preciso ficar atento a tudo - o tempo inteiro. É necessário treinar o olhar, como diz a editora assistente de O Globo, Angelina Nunes. "A grande diferença é aperfeiçoar os olhos para enxergar a cidade". As pautas estão aí e, claro, além de ser bom observador, contar com um pouco de sorte não faz mal. Foi por situações assim que Angelina, o colunista da Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi, e o repórter especial do jornal O Dia, João Antônio Barros, conseguiram grandes furos.
Abaixo o relato dos três jornalistas
"Estava conversando com um amigo, que é alguém, inclusive, que sempre me conta coisas que rendem pautas. Estávamos falando sobre um assunto e ele acabou comentando comigo sobre um vídeo que estava no Youtube. Até então, não tinha visto o conteúdo, mas mostrava o momento em que policiais fizeram uma ação para prender assaltantes. Não dava para ver direito o vídeo por causa da resolução, não conseguia distinguir direito a situação. O que se sabia, e o que o filme mostrava, era que um grupo tinha feito um assalto num restaurante do Rio de Janeiro e, na fuga, havia tido um tiroteio. O mistério estava na bolsa com o dinheiro que os bandidos roubaram. Ela simplesmente sumiu e uma pessoa na rua filmou o momento em que o policial pegou essa bolsa. A imagem era ruim e não dava para saber direito quem era. Fui atrás da pessoa que colocou o material na internet, até então desconhecida, e ela me passou o vídeo na íntegra e com melhor resolução. Pude ver que o policial roubou a bolsa e o rosto dele aparecia bem. Não tinha dúvidas de que a mochila era a mesma do roubo. Com essa informação, consegui fazer a reportagem. Dois dos bandidos morreram durante o tiroteio, e quando fiz a matéria os policiais foram expulsos. Não fosse a minha fonte e a pessoa que filmou, até hoje ninguém saberia que o policial tinha roubado o dinheiro. A princípio, falavam que a bolsa estava vazia e que tinha sumido. Mas era mentira, os policiais sabiam onde ela estava. Quando a PM soube que a informação seria publicada no jornal, soltou uma nota dizendo que o caso seria investigado."
Detalhes que fazem a diferença - Angelina Nunes, O Globo
"Anos depois da Chacina do Vigário, muitos jornalistas estavam buscando parentes das vítimas para entrevista, mas ninguém queria falar. Então, encontrei a Maria dos Anjos e fui até a casa dela, mas ela já tinha dito que não queria conversar com ninguém. Eu sabia o quanto era doloroso para as fontes falarem sobre o assunto. Quando cheguei, ela abriu a porta com a blusa molhada e as mãos esbranquiçadas de água sanitária. Era evidente que ela estava lavando roupas naquele momento. Apresentei-me e ela disse que não queria dar entrevistas. Perguntei sobre as mãos machucadas pelo produto e começamos a conversar sobre lavar roupas. Foi aí que ela aceitou que eu entrasse. Fizemos a entrevista e a situação inclusive foi o abre da minha reportagem, chamada 'Vigário procura lugar para seus mortos - Exumação preocupa parentes de vítimas da chacina, que dizem não ter dinheiro para pagar ossários'. Se não fosse por isso, talvez eu não tivesse conquistado a confiança dela e não teria tido os relatos."De um andar para o outro - Clóvis Rossi, Folha de S. Paulo
"Em 1973, estava no Chile como enviado especial. Em determinada sexta-feira aconteceria uma reunião com reitores e militares. Tentei acompanhar o encontro, mas foi impossível pois era fechado e, também, porque tinha toque de recolher e eu precisava voltar ao hotel. Lembro que, na época, passávamos os textos por meio de telex e sempre acontecia algum problema e as informações chegavam com erros de transmissão ao Brasil. O meu texto, que seria publicado no Estadão de sábado, já estava escrito e enviado, mas precisei retornar e reenviar o documento para corrigir esses erros. Foi aí que encontrei um homem dentro do elevador. Ele me perguntou se eu era jornalista e eu confirmei. Depois, questionou se eu tinha conseguido acompanhar a reunião com os reitores. Nessa conversa, ele comentou comigo o que aconteceu nesse encontro, pois ele tinha participado. Entrevistei essa fonte e ganhei um furo. Ele me contou que iriam intervir nas universidades do país e que um militar seria nomeado como reitor de todas as instituições. Eu tinha acompanhado o começo dessa reunião e sabia que algo de grave seria anunciado ali. No momento da entrevista, a fonte se mostrou muito bem informada sobre o que estava acontecendo e não me pareceu que ela inventaria tal coisa. Fora isso, ele era reitor de uma das universidades. Confiei, escrevi e transmiti o texto no mesmo dia. Ganhei a manchete do jornal de domingo e éramos os únicos a ter a informação."Detalhe que faz a diferença
Além das histórias, os jornalistas falam sobre o trabalho antes das novas tecnologias e qual a visão deles sobre repórteres que ficam muito tempo na redação. "Peguei o final da máquina de escrever", diz Barros. O profissional explica que, antigamente, os profissionais disputavam dois telefones na redação e que ir para rua era lei. "Antes, o jornalista ia para a rua e voltava para ligar para as assessorias e pedir mais informações". De acordo com ele, o repórter precisa estar "cara a cara" com a fonte para manter a originalidade dos relatos. "Quanto mais pessoal for, melhor. Algumas pessoas têm medo de passar informações por telefone e o contato físico tranquiliza", explica.
Angelina avalia que o equilíbrio entre estar na redação e na rua é o ponto chave. "É preciso conciliar as duas coisas. Não adianta ficar só no ar condicionado da redação, assim como não adianta ficar o tempo inteiro na rua". Para ela, o repórter tem que ter olhar periférico. "Na redação ou na rua, é preciso focar na sua reportagem e prestar atenção no que está acontecendo ao redor. Tudo pode render pauta".
Embora concorde que muita coisa possa ser feita direto da redação, Rossi afirma que quem não vai para a rua não faz bom jornalismo. "Dava para cobrir as recentes manifestações por telefone? Não! Você não consegue colher informações e sentir o ambiente se não for para a rua".
Portal Comunique-se

0 comments:
Post a Comment